Título: O vôlei rumo ao ouro
Veículo: Revista Placar
Data: 3 de agosto de 1984


Bernard promete: esta semana, ele começa a jogar sua própria vida em Los Angeles


Quinta-feira passada, depois de duas longas sessões de treino, ao jogadores da Seleção Brasileira de vôlei masculino tomaram banho, trocaram de roupa e, exaustos, começaram a procurar seu ônibus. “Vamos embora, pessoal”, gritou alguém. Um convite desnecessário: afinal, após 8 horas de trabalho, quem não queria descansar?

Foi então que se ouviu a decidida do capitão William: “Nada disso, agora temos de ver o treino deles”. Ninguém reclamou – e cada um, com sua sacola, seu cansaço e sua obstinação de vitória tratou de se acomodar nas cadeiras alaranjadas da arena de Long Beach, onde assistiram por mais de 2 horas a um jogo-treino entre Coréia do Sul e Itália.

Ali, a partir das 20h30 desta terça-feira (horário de Brasília, quatro horas antes na costa norte-americana do Pacífico), quando estréiam contra a Argentina em Los Angeles, William e seus 11 companheiros começam a viver o sonho de tentar uma medalha de ouro diante dos fortíssimos adversários da escola asiática e dos poderosos anfitriões, considerados favoritos da disputa.

Para eles e para o vôlei brasileiro, que da Olimpíada de Moscou para cá se transformou de um divertimento de praia na nova paixão nacional, esta não será simplesmente uma competição – mas, pela primeira vez desde que se ergueu uma rede no país, no início do século, uma cortada tão grande que a única comparação possível, guardadas as proporções, é com a angústia que acompanha uma Copa do Mundo de futebol.

“Eu, por exemplo”, dimensiona Bernard, o maior ídolo do Maracanãzinho e do Ibirapuera, “jogarei aqui a minha vida”. Não há nenhum exagero. A Seleção vai decididamente colocar na quadra toda sua garra, seu talento e sua técnica em cinco ou seis jogos que deverão mudar os hábitos de sono dos torcedores brasileiros: depois da Argentina, a Tunísia (dia 2 de agosto, 16 horas), Coréia do Sul (dia 4, 16 horas), Estados Unidos (dia 6, provavelmente começando à meia-noite) e, se tudo correr bem, a semifinal (dia 8, 22h30) e a final (dia 11, 22h30).

A tabela é boa. Haverá em média um intervalo de 48 horas entre cada partida – sem falar da ausência da União Soviética, que seria a provável campeã, e dos demais países socialista. “Mas não podemos nos iludir”, adverte o técnico Bebeto de Freitas sem disfarçar a tensão espelhada nos olhos e nos gestos. “Serão jogos muito difíceis. O único adversário que não me preocupa é a Tunísia”. Na verdade, os planos de Bebeto prevêem uma partida também tranqüila contra os Estados Unidos, porque ele espera garantir uma das duas vagas no grupo depois de enfrentar os coreanos, que seriam então eliminados, junto com a Argentina e a Tunísia (que domingo perdeu por 3x0 para a Coréia). Dentro deste raciocínio, brasileiros e norte-americanos, já classificados, jogariam dia 6 para escolher o time contra o qual se confrontariam nas semifinais. Na outra chave, formada por Egito, Itália, Canadá, Japão e China, prevê-se uma luta dura entre os quatro últimos, principalmente depois da vitória do Japão contra a China por 3x0, domingo.

Até lá, a Seleção irá conhece-los a fundo, estudando em minúcias, seu estilo de jogo. Assim, no domingo à noite, o time foi observar a derrota da Argentina para os Estados Unidos. Cada jogador estava encarregado de fazer anotações sobre um argentino: falhas, acertos, características e a melhor maneira de neutralizar seus pontos fortes e explorar suas fraquezas. Para segunda-feira, fora programada reunião de pelo menos 2 horas e meia, durante a qual eles veriam o teipe e discutiriam o sistema tático e as principais características individuais de sue primeiro inimigo – um ritual que se repetirá ao longo da Olimpíada. “Vamos trabalhar o tempo inteiro”, diz William cujas atribuições começam às 7 horas da manhã, quando toca o despertador colocado ao lado de sua cama. Ele é o primeiro a levantar, mas só acorda os demais jogadores depois que toma um banho e se barbeia: o grupo ocupa dois quartos da Vila Olímpica da UCLA e num deles, duplo, em que estão oito pessoas.

topo

voltar