Título: Eles têm a força
Veículo: Revista saque nº 5
Texto: Emanuel Mello Matos

O Brasil sabe que, para competir com as grandes forças do voleibol mundial, não bastam apenas jogadores excepcionais e experientes. È preciso um trabalho científico de condicionamento físico, idêntico ao desenvolvido pelas Seleções Européias e Asiáticas, que estarão tinindo na Copa do Mundo. Com ajuda da Informáticam o preparador físico Paulo Sérgio e o médico Edmundo Novaes, da Seleção masculina, colocaram mãos à obra. O resultado, você vai conferir na matéria a seguir.

A média de idade do time brasileiro masculino adulto será provavelmente a mais alta nas próximas Olimpíadas (Seul – 1988) entre todas as seleções presentes aos jogos. A afirmação é de Paulo Sérgio de Oliveira da Rocha, preparador físico da Seleção masculina e da Pirelli. Isto é bom ou ruim? Para Paulo Sérgio, é bom.

Como exemplo maior, a Seleção da União Soviética que levantou as principais competições dos últimos anos (a URSS não participou das Olimpíadas da Los Angeles porque o governo determinou o boicote aos Jogos) teve a mais elevada média de idade de todas as seleções. Se você pensou que o fator é a experência, acertou. Experiência, como tempo acumulado através dos anos de jogos, ou “rodagem”, como define Paulo Sérgio. O médico da Seleção, Edmundo Novaes, acrescenta: “Se dois times que se enfrentarem tiverem hipoteticamente o mesmo tipo de preparação, durante o mesmo período de tempo, ganha aquele que tiver maior ‘rodagem’. Esse time terá maior ‘intimidade’ com o jogoe maior ‘capacidade de previsão’ de uma jogada”.


Os amistosos necessários para enturmar os mais novos
Não é a toa que a Seleção Brasileira masculina fez uma série de amistosos contra outras seleções para adquirir conjunto e ritmo de jogo antes da Copa do Mundo, O preparador físico da Seleção admite que esses jogos cortam o andamento dos treinamentos, não pelas partidas em si, mas por causa das viagens, essas sim, muito desgastantes, mas necessárias do ponto de vista financeiro, “muito importante”. Além do mais, esses jogos servem para integrar os jogadores com pouco tempo de Seleção, como Pelé, Zé Eduardo, Pampa e o juvenil Betinho, os dois últimos entrando no grupo pela primeira vez.

Isso não deve, de maneira alguma, levar a pensar que para um grupo que chega num determinado estágio não é mais necessário o preparo físico, que só a “rodagem’’garantiria bons resultados. Foi pensando no bom preparo físico e objetivando um bom resultado na Copa do Mundo que a comissão técnica lançou no começo de setembro o seguinte esquema de trabalho: primeira semana – Poços de Caldas (onde foi feita uma recauchutagem para recuperação das forças perdidas na decisão da Copa Brasil); segunda a quinta semana – São Bernardo (trabalho anaeróbico – de resistência, impulsão, trabalh apurado de defesa e ataque etc., onde se visa melhorar os pontos tecnicamente novos da seleção e manter os aspectos positivos que o time vem apresentando nos últimos anos); sexta a oitava semana – jogos contra a Tchecoslováquia para aprimoramento da parte técnica. Oito semanas de treinos e jogos visa a busca do título da Copa do Mundo, que é classificatória para as próximas Olimpíadas.


A preparação física nos clubes facilitou o trabalho na seleção
O início do trabalho não foi difícil, pois Paulo Sérgio manteve constato com os principais clubes e afirma que o trabalho de preparação física feito pelos clubes na última Copa Brasil é ótimo. Antes da primeira semana foram feitos exames de rotina com os jogadores, pois a partir deles é que é feito o trabalho específico de cada um. Assim, de acordo com a função na quadra, é preparado um diagrama de trabalho pessoal, uma vez que a exigência física é diferente. É por isso que não pode haver comparação entre teste dos jogadores. Como comparar pessoas com funções diferentes?

Terminados os testes, o médico Edmundo Novaes processa os dados no seu microcomputador através de programa inteiramente desenvolvido por ele e sua mulher, a professora Elen Furtado, que merecu até apresentação no Simpósio Nacional de Medicina Esportiva, no Rio de Janeiro, em 83, além de convites para ser apresentado no Chile e Equador. O programa determina a capacidade aeróbica (corrida) de atleta, sua composição corporal e seu peso muscular.

Esses dados são a base de tudo. No caso de Pampa, que não tinha nenhum dado arquivado, essas informações são essenciais. Nos outros casos, Paulo Sérgio compara os dados anteriores dos atletas com e assim pode traçar um perfil da evolução de cada um. Essa informação é importante porque diz até onde o atleta pode chegar.

A ordem é evitar comparações, mas “William parece um maratonista”
Para que não houvesse comparações entre os jogadores, a comissão técnica evitou fazer comentários a respeito dos resultados obtidos, mas deixou escapar opiniões com: “Foi impressionante o desempenho do Leonildo”, “o William tem um condicionamento de maratonista”, “o pessoal de São Paulo encarou com mais animação a bateria de testes, pois um sempre queria obter uma marca melhor que o outro”.

Os testes foram realizados na Universidade Gama Filho, no Rio, e acompanhados por vários alunos (a grande maioria de alunas), o que Edmundo Novaes acha ótimo, pois dissemina uma mentalidade científica e uma linguagem específica. Quanto aos resultados, o médico considera o grupo homogêneo e a da Brasil uma das Seleções mais bem preparadas fisicamente no mundo. Ainda, segundo ele, os exames servem como estimulo psicológico para os jogadores, pois eles mesmos comparam seus resultados anteriores e observam seus progressos.
Paulo Sérgio, por fim, considerou improvável uma mudança no atual grupo de jogadores; novo grupo só para as Olimpíadas de 92 (uma Olimpíada exige pelo menos dois anos de preparação), com o surgimento de juvenis no Campeonato Mundial da categoria em Bahrein, no Golfo Pérsico, em 87.

Por enquanto, ninguém conseguirá entrar no verdadeiro “círculo fechado’ da Seleção masculina adulta.

Os números
Animadores, mas não ideais. Assim podem ser classificados os resultados dos testes físicos realizados pela Seleção vice-campeã Olímpica, se comparados com os números da Copa do Mundo de 1981. Segundo relatório de Paulo Sérgio Rocha, a equipe ganhou três quilos em massa muscular, melhorou em 110 metros a capacidade aeróbica, avaliada através do teste de Cooper, e, praticamente manteve o mesmo nível de capacidade aeróbica avaliada em esteira rolante, em 55ml/min/kg. Nestes itens, a comissão técnica já colocou no papel os objetivos a serem alcançados até as Olimpíadas de Seul, 88: aumentar a massa muscular para 80kg, manter o Cooper em 3.100, 3.150 metros e elevar o volume de oxigênio na esteira para 60ml/min/kg.

Na bicicleta ergométrica, a meta para Seul-88, é aumentar o resultado para 5,00watts/kg no teste de 30 segundos (capacidade alática) e mantê-lo em 7,50watts/kg no teste de 60 segundos (capacidade lática). Quanto à impulsão vertical, o objetivo é melhora-la em três centímetros nos próximos três anos. Agora confira nas tabelas o desempenho de William e cia. nos últimos quatro anos e sinta o que o Brasil pode conseguir no Japão.

 

Massa Muscular - kg

Teste de Cooper
(12 min) - m

Esteira Rolante
Vol. 02

Bicicleta Ergométrica - (30s) watts/kg

Impulsão Vertical no Ataque - cm

Ano

81

85

81

85

81

85

81

85

81

85

Bernardinho

71,7

71,8

3.140

3.160

54,45

58,45

3,90

4,20

82

85

Maurício

74,2

78,0

3.110

3.250

51,14

53,95

4,11

4,77

87

88

Montanaro

77,2

81,2

3.240

3.380

51,14

58,55

4,60

4,79

92

98

Rui

82,3

82,8

3.000

3.110

57,42

57,91

4,73

4,88

90

95

Renan

79,4

80,4

2.990

3.070

48,00

51,08

3,89

4,36

89

94

William

71,3

75,0

3.300

3.390

57,42

58,40

4,10

4,55

88

90

AmauriI

75,1

81,9

2.730

2.940

51,14

54,75

4,04

4,51

85

89

Maracana

79,9

82,0

3.010

3.210

54,28

56,74

3,78

4,67

87

91

LÉO

66,0

67,5

2.970

3.070

51,14

57,27

3,70

4,65

84

90

Médias

75,2

78,2

3.020

3.130

56,63

55,76

4,04

4,66

87

92

Acréscimo

+ 3,0kg

+110m

+0,13ml

+0,62watt/kg

+5cm

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