Título: O fantástico homem-borracha
Veículo: Revista Saque nº 3
Texto: Luiz Carlos Sperândio

A humildade de Amauri é diretamente proporcional ao seu talento: quanto mais os colegas da Pirelli e da Seleção o elogiam, mais ele se retrai fora das quadras. Talvez seja por isso que os fãs e a Imprensa não o procurem tanto. Desligado, como os verdadeiros gênios. Amauri não se importa e quer apenas cumprir sua missão, bloqueando e atacando como um mestre. Com vocês, Amauri Ribeiro, mais conhecido como homem-borracha.

Alento para os companheiros, tormento para os adversários, tranqüilidade para seus treinadores. Amauri, 26 anos de idade, principal meio-de-rede do Brasil, é reconhecido por técnicos, dirigentes e jogadores de voleibol. É integrante, sem dúvida alguma, da geração de ouro do voleibol brasileiro, ao lado de Bernard, Renan, Xandó, William, Montanaro, Badá, mas, ao mesmo tempo, não é recompensado com a mesma dose de carinho pelas tietes, torcedores e, também, pela Imprensa em geral. Fala-se mais, é verdade, em Xandó, William, Montanaro, Bernard, Renan, enquanto Amauri corre o risco de deixar uma quadra sem as insistentes aglomerações que invariavelmente sufocam os companheiros. Mesmo que ele tenha sido o principal responsável pela recém-consumada vitória de seu time.

Reconhecido pelos que têm intimidade maior com o voleibol. Mas nem sempre visto da mesma maneira pelo público. Amauri teria razões para sentir algum desapontamento, certa mágoa. Mas garante que o vazio que poderia formar dentro do peito é imediatamente preenchido com outros sentimentos de quem cumpriu a missão.”Pode ser, às vezes a falta do carinho da torcida pode magoar um pouquinho, mas os dirigentes, técnicos e os próprios companheiros reconhecem o valor da gente dentro da equipe. Acho que a maior prova está no fato de eu ter sido titular em todas as equipes que passei”.

Mas o fato é que apenas os levantadores podem dar o devido valor aos passes de Amauri, como os companheiros de rede – apenas eles – têm condições de dimensionar a importância do jogador na marcação do bloqueio adversário. Amauri explica: “Acho a posição em que jogo não aparece muito mesmo. O bloqueio não aparece tanto, não causa aquele delírio da torcida. A cortada é o gol do futebol e o bloqueio seria a defesa, o antigol. O passe aparece menos ainda. Repito, isso nunca me deixou magoado, mas no fundo espero ser reconhecido. O próprio William não era procurado tanto pelos torcedores quando o vôlei explodiu, mas hoje deixa de ver nele um dos principais motivos do sucesso da Pirelli e da própria Seleção”.

No meio da decisão, ele brinca de aviãozinho de papel
Na verdade, Amauri tem culpa no cartório também. Talvez seja ele o jogador mais introvertido da Pirelli e da Seleção. Seu jeito simples, sua aparência de desligado, sua falta de vibração talvez ajudem a afastar torcedores e repórteres. Possui uma tranqüilidade que chega a ser irritante – principalmente para os adversários. Vale lembrar a decisão do Sul-Americano de Clubes em San Juan, Argentina, entre Pirelli e Bradesco-Atlântica, em 83. Em meio ao jogo tenso, que sempre marcou o confronto desses tradicionais adversários, Amauri tenta mandar à torcida um aviãozinho de papel. Mas o avião finta a arquibancada e cai na quadra adversária. Amauri levanta os ombros, ri, acha graça da situação, como se não estivesse em disputa um título continental. Uma atitude natural, que na verdade, enerva os adversários e acalma os companheiros de equipe: “Mas não sou desligado. Posso me desligar de outras coisas, mas não dentro do jogo. Também tenho nervos, sinto a situação, mas não extravaso. Tenho muita bagagem e talvez por isso mostre calma maior que os companheiros”.

Verdade. Desligado fosse, Amauri na certa não seria essa sumidade no bloqueio e tampouco teria condições de orientar os dois companheiros da rede. Está aí, aliás, a função que mais exige do jogador: “O mais difícil é orientar os colegas da rede, a fazer a cabeça deles de acordo com a sua. Aquele tipo de combinação, quem sobe no primeiro ou segundo homem, ou vice-versa. Às vezes, é difícil para os outros assimilarem, porque são muitas variações de jogadas. E isso, a gente consegue só com muito tempo, com entrosamento com os companheiros’.

Antes do vôlei, ele já fez ginástica de solo, jogou futebol, basquete...
Amauri iniciou carreira há 13 anos – e poucos imaginam que o primeiro esporte praticado pelo jogador tinha sido a ginástica de solo. Antes do vôlei, também praticou o futebol. Passou por duas peneiras como meia-armador do São Paulo e só abandonou devido a dificuldades de condução – dois ônibus de sua casa, no bairro do Ipiranga, até o Morumbi. Aos 13 anos, no Instituto de Educação Alexandre de Gusmão, no Ipiranga e logo em seguida no Centro Educacional Arthur Friedereich, na Vila Alpina, tomou os primeiros contatos com o voleibol. Para sorte do voleibol brasileiro, aliás. A seu lado, Celso Nardi e Nivaldo seguiam atentamente instruções do professor Carlos, que os encaminhou ao Paulistano. Chegou, também, a praticar basquete no Corinthians, mas não gostou.

Amauri dá nota para ele mesmo: saque: 7; bloqueio e recepção: 9; ataque de ponta e de fundo: 6; ataque de meio e defesa: 8 (média 7,5). Na época do Paulistano Amauri era atacante de ponta – cruzava com Xandó e então na Atlântica de 81 passou a fazer o meio-de-rede, onde desenvolveu bastante e passou a ser reconhecido como melhor bloqueio do Brasil, além da importância para o levantador na recepção. Mas o atacante Amauri nasceu no início de 82, quando transferiu-se para a Pirelli. Hoje, a bola de William vai subindo, subindo, e o braço de Amauri vai esticando, como se fosse composto de material elástico: o encontro da mão com a bola é fatal e invariavelmente acontece quando o bloqueio já está no chão e o ponto ou vantagem é inevitável.

Hoje – também em decorrência das novas regras – Amauri começa a aprimorar os ataques do fundo da quadra. Humilde, ele não destina nenhuma nota 10 para nenhum fundamento: sete para o saque, nove para o bloqueio e recepção, seis para o ataque de ponta e do fundo, oito para ataque de meio e defesa: “Dez seria perfeição, mas na média acho que passei de ano, né?” – brinca – ao mesmo tempo que não vê mais como evoluir no voleibol: “A partir de agora é difícil evoluir, mas é claro que a cada jogo adquirimos mais experiência e isso sempre ajuda. O que precisamos é manter a parte física para garantir um tempo maior no vôlei”.

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